Moderadores: Antonio Neves, Nuno Miguel
Olá, o meu nome é João Paulo Henriques Barroso e sou bilhardeiro!
Começou como uma paixão soalheira, a minha bilhardice, mas tão depressa se intensificou que, assim que apareceram os primeiros chumbos por faltas, atingiu o seu ponto paroxístico para, logo de seguida, desvanecer...
Apareceram em seguida as primeiras ansiedades e devaneios, de tal forma grotescos que ainda hoje me interrogo se não seriam apenas sintomas de um qualquer síndrome de abstinência do bilhar... Sonhei atingir um tal domínio da linguagem da natureza que me permitiria ser o primeiro a desvelar os segredos do Universo e, consequentemente, a tocar a mão de Deus... Mas bastou tão somente um pequeno vislumbre de uma rudimentar equação diferencial para caír de novo em mim: carcaça de carnes mal organizadas, descendente de cavadores da Beira que, como sabeis, não lêem Aristóteles!
Frustradas as megalómanas fantasias omniscientes, resignei-me à evidência de que o meu catavento intelectual apenas se poderia orientar por pretensões mais mundanas. Nasceram então as minhas fugazes ambições literárias... E aqui tudo se tornou mais grave: capaz de criar pastiches dos maiores vultos da literatura universal, depressa me considerei como aquele que, potencialmente, encerrava em si todos os desígnios da poiesis! Mas foram as artes literárias que mataram à fome Camões! E essa fortuna não queria eu para mim...
Lembrei-me então dos Pessoas e do O'Neill e, foi naturalmente que descobri a síntese dialéctica (em sentido hegeliano, bien-entendu...) entre as artes literárias e o sucesso financeiro. Tal era a minha confiança que me julguei capaz de, em tempos de calças Diesel e Replay, vender os saudosos jeans Old Chap! Não estava ainda todavia suficientemente ressentido para me entregar à mais velha profissão do mundo. E, como reza o velho adágio rústico-romântico, "não há amor como o primeiro", por isso... regressei à bilhardice. Não como mais um bilhardeiro entre muitos mas, de uma forma muito mais original, como um taberneiro (quiçá a segunda mais velha profissão do mundo...) do bilhar... Pragmática decisão esta que, no entanto, se revelou como muito pouco compensadora monetariamente. Quer isto dizer que aos taberneiros muito é exigido e pouco é devolvido... Aliás, por circunstâncias da própria arte, deveria ser autorizado aos pobres tasqueiros o uso, ainda que só atrás do balcão, do Simpósio Terapêutico... Mais uma frustração, e agora, de agridoce, minh'alma passou ao azedume... É quase de lágrimas a correr que, quotidianamente, percorro o caminho para uma espécie-de-botequim-de-luxo-situado-no-segundo-andar-de-um-prédio-numa-rua-industrial-de-um-bairro-chique-da-cidade-de-Ulisses. Triste vida a minha! Não bastava carregar nos ombros uma cabeça indigna até para os parâmetros da Vitória de Samotrácia, e sorrir de forma tão dúbia que envergonharia o deus que nomeou o presente mês, tinha ainda de descobrir que, a juntar a esta feiura que se queria cândida, estava o singular talento dos meus braços... Qual filho da Talidomida, esse fármaco precursor dos sintomas da radiação de Chernobil, bilhardava com a sensibilidade fantasmagórica de uma Vénus de Milo... E embora me pudesse orgulhar de possuir uma certa filiação com a patologia da estátua do Louvre, jamais tal coincidência entre os nossos membros superiores me poderia vantajosamente servir para sublimar os meus ímpetos bilhardeiros!
Não quer isto dizer que não tenha tido os meus momentos de glória bilhardeira. Ainda me lembro orgulhosamente de um lugar de quase-pódio no torneio anual dos antigos alunos da Fenacercis em que delicadamente me ofereceram um wildcard... E, verdade seja dita, ainda guardo carinhosamente esse saco repleto de "pirilampos mágicos" em jeito de troféu...
Não fica por aqui o meu palmarés bilhardeiro: Certo dia, ao passar à frente do edifício do centro Louis Braille da Venda das Raparigas, detive o meu olhar perante o cartaz anunciador do sexto torneio semestral dos alunos da dita instituição. Nem hesitei. Entrei de rompante pela secretaria dessa escola de cegos e inscrevi-me no tal torneio. Pasmem-se: cheguei ao pódio! Afinal, talvez a ainda curta carreira bilhardeira fosse mais promissora do que os atrás descritos devaneios passionais. Agora, definitivamente, sofria de bilhardice crónica. A prova estava todavia ainda por chegar: por altura de uma curta estadia estival numa estância quase estrangeira (estamos a falar de Trás-os-Montes...), participei, ganhando (?!), no torneio do Centro Hellen Keller de Carrazeda de Ansiães. Como vêdes estou perdido!
Desde já um grande bem haja pela vossa ajuda.
O vosso,
JP










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